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Análise – Far Cry 6

Far Cry é uma das franquias mais famosas da Ubisoft, que coloca os jogadores em jornadas recheadas de ação, violência, vastos ambientes para explorar e tramas com vilões icônicos. Os temas se renovam, mas a fórmula permanece. Em Far Cry 6 é a vez dos jogadores entrarem de cabeça em uma guerrilha para derrubar um governo opressor, liderado pelo ditador Antón Castillo, que chega com a bagagem da interpretação impecável de Giancarlo Esposito.

A ideia central é infligir o caos para libertar a ilha com um vasto arsenal de possibilidades, nada muito diferente do que já visto na série. Apesar de novidades, Far Cry 6 ainda se prende ao básico da franquia. Será que essa familiaridade é boa ou já mostra sinais de desgaste na fórmula? Confira em nossa análise.

Um vilão brilhante e uma trama intrigante

Far Cry 6 nos leva para o paraíso caribenho de Yara, uma bela ilha fictícia governada pelo presidente Antón Castillo, que aterroriza seu povo com um regime opressor, sem liberdade para nada. Castillo subiu ao poder com a promessa de que retornaria Yara aos seus melhores momentos, mas não disse que iria passar por cima do povo para isso, e que apenas alguns poucos privilegiados iriam viver esse sonho. Para o povo, existe a “honra” de trabalhar nos campos de Viviro, uma droga que é pulverizada no tabaco para evoluir com a promessa de curar o câncer. O que o governo de Castillo não conta para a imprensa é que ele é produzido com trabalho escravo daqueles que ele rotula como Párias e Fake Yarans, que são submetidos a condições horríveis de “trabalho”. O que o governo também não conta é que muitos desses escravos são usados como cobaias de laboratório para testar as possibilidades do Viviro, como fazer as pessoas enlouquecerem ou terem alucinações.

Constantemente as pessoas tentam fugir de Yara, mas a forte presença militar do exército de Castillo torna isso praticamente impossível. Quem deciciu ficar e lutar para libertar a ilha são os guerrilheiros como de grupos como o La Libertad, que com toda a criatividade e determinação de suas almas buscam infligir o caos contra o governo para dar liberdade ao povo. É então que entra Dani Rojas na equação (que pode ser homem ou mulher), que tentava fugir de Yara, mas teve seu barco destruído pelos militares. Ela sobrevive e se une a guerrilha para destruir Castillo.

A estrutura narrativa segue a mesma receita de bolo de todos os Far Cry. Somos um ninguém, que ascende ao papel de herói conforme destrói o governo e busca aliados. Nós precisamos enfraquecer a presença militar de Castillo nas três principais regiões de Yara, enquanto ajudamos os líderes locais e os recrutamos para a causa de La Libertad.

Antón Castillo é o vilão de Far Cry 6, logo ele é o grande destaque do jogo. Giancarlo Esposito traz uma interpretação luxuosa para o tirano de Yara, que comanda seu povo com punho de ferro e coloca medo até mesmo em seus aliados, com sua personalidade sombria. Mesmo que as animações faciais derrapem e não façam justiça ao brilhante trabalho do ator, você facilmente entende como ele é tão odiado e temido pelo povo. Sua relação com o filho Diego possui diversas camadas complexas, que reforçam ainda mais toda a sua sociopatia. Ele não traz todos os exageros e momentos memoráveis de vilões como Vaas ou Joseph Seed, mas nos deixa apreensivos com o que pode vir a seguir. Antón poderia até mesmo não ter se tornando um vilão memorável de Far Cry, mas a interpretação monstruosa de Esposito traz uma força sobrenatural para o personagem.

Castillo é um vilão imponente, mas Far Cry 6 também possui outros personagens marcantes. Os líderes de cada região adicionam tramas muito interessantes que explicam bem suas motivações, de forma que nos importamos com eles. A líder do La Libertad Clara e o veterano Juan, que vive nos explicando o sentimento de ser um guerrilheiro, também são muito bem construídos e se tornam memoráveis para a nossa jornada em Yara, algo que acontece raramente em um Far Cry, onde geralmente apenas nos lembramos dos vilões ou personagens próximos a eles.

As missões principais da história possuem um bom fluxo, com tramas interessantes, que trazem bem o sentimento de união para libertar o povo da opressão de um tirano. Ainda assim, acredito que faltou trazer mais o impacto dos acontecimentos para Dani, que passa por situações pesadas, mas não existe uma consequência disso depois, faltou dar mais personalidade para a protagonista. Muitas vezes parece uma adolescente brincando de guerrilha. A própria narrativa parece querer apenas forçar uma fantasia de guerrilha em vez de mostrar isso com mais maturidade.

Existe um número extenso de missões secundárias, com algumas delas trazendo tramas interessantes, com outras muitas sendo bobas e descartáveis. Aquela necessidade já característica da Ubisoft de inchar seus mapas com atividades. Como existe um nível recomendado para as áreas, você se sente obrigado a fazer muitas delas para não ter muitos problemas para avançar na história, o que tira um pouco do impacto dos acontecimentos.

Apesar dessa exagerada quantidade de tramas secundárias, ainda conseguimos nos importar com o que acontece na história, com reviravoltas intrigantes e momentos de tirar o fôlego com o vilão de Esposito, que entrega um vilão menos entregue a ação, mas com o poder profundo de mexer com seu psicológico. Mas é uma pena que tenhamos que fazer tanta coisa repetitiva e sem importância nesse meio tempo.

Uma experiência clássica de Far Cry

Far Cry já possui um estilo característico de abordar a jogabilidade, onde precisamos diminuir a influência de nosso inimigo em uma região, seja tomando Postos Avançados, roubando cargas, ajudando a população local ou simplesmente explodindo tudo pelo caminho. A cada novo jogo a Ubisoft busca adicionar algum tipo de mecânica nova, mas a essência continua a mesma.

Com Far Cry 6, o estúdio buscou uma abordagem parecida com o que alcançou nos títulos mais atuais de Assassin’s Creed, trazendo leves elementos de RPG para o jogo, com os quais o jogador sinta que suas escolhas trazem algum tipo de impacto para o que acontece ao seu redor, bem como no resultado dos combates. Os inimigos possuem níveis e quanto mais distante ele estiver do seu, mais dificuldades você terá. As regiões também possuem recomendação de nível, o que também aumenta conforme você realiza algumas façanhas em Yara. Os inimigos possuem fraquezas, e o jogo te oferece diferentes tipo de munições para ser mais eficiente contra eles. As armaduras, que podem ser alocadas em cabeça, peito, pernas, pés e pulso, conferem diversos tipos diferentes de benefícios, que você pode mudar a qualquer momento de acordo com o que estiver fazendo, seja explodindo uma refinaria ou caçando um animal de noite.

Quanto a exploração do mapa, a receita de bolo é a mesma não só de Far Cry, mas de todos os jogos da Ubisoft no geral, o jeito de subir nos locais, se camuflar nos arbustos, guardar as armas para não chamar muito a atenção dos guardas. A novidade fica por conta do uso de celular de Dani para marcar os inimigos, destacando seus pontos fracos.

O mapa é gigante, como é de costume do estúdio entregar, e ele está repleto de atividades, que, infelizmente se repetem muito e trazem poucas novidades. Como esperado, temos os Postos Avançados onde precisamos eliminar todos os inimigos para estabelecer uma base para os aliados. Também existem os Pontos de Controle, que ficam nas estradas para fiscalizar a movimentação de veículos. Aqui além de eliminar todos os inimigos, precisamos destruir o outdoor de propaganda de Castillo. Outra atividade importante é destruir armas antiaéreas, pois com elas ativas não podemos sobrevoar o local onde ela protege. Também existem animais lendários para caçar, baús especiais de recompensas e até caças ao tesouro.

Um sistema interessante e irritante ao mesmo tempo é o nível de ameaça que o jogo possui. Quanto mais infligimos caos em Yara, mais chamamos a atenção das Forças Especiais de Castillo, que começam a ir atrás de você com tudo o que tem, soldados elite, tanques, helicópteros e por aí vai. Enquanto não saímos de radar deles, eles continuam vindo, o que traz um sentimento delicioso de desafio. O problema é que em diversos momentos, mesmo depois de um bom tempo fora de combate eles continuam vindo infinitamente, impossibilitando realizar outras atividades.

A grande novidade de Far Cry 6 são as mochilas Supremo, que oferecem um poder de combate sem igual na história da franquia. Cada mochila possui um tipo diferente de vantagem, seja lançar foguetes e anéis de fogo, curar e lançar fumaça ou até mesmo destacar inimigos atrás de paredes. Cada uma pode se encaixar em diferentes ocasiões. Basta aguardar seu tempo de recarga para ativá-la e dar início ao espetáculo. Também existem as Gambiarras, que são armas inusitadas, como a famigerada lançadora de discos que toca Macarena. Com todas essas insanas possibilidades, as batalhas seguem divertidas como sempre.

Far Cry 6 retorna com os companheiros, que aqui receberam o nome de Parças. Temos um Crocodilo com roupa, um doguinho fofo, um galo, uma pantera sobrenatural e por aí vai. Cada um possui um estilo diferente de abordar os inimigos, seja para comê-los vivos ou destraí-los. Eles oferecem uma boa ajuda no combate. Minha única ressalva é que assim como as outras IA do jogo, as vezes eles desligam e não respondem ao seu comando.

Os veículos estão diversos e com uma direção bastante melhorada, apesar de todos serem extremamente velozes, até mesmo os cavalos, o controle deles está muito bom. Para mim, o melhor sistema de direção da franquia até o momento.

Também existe as missões de Los Bandidos nas quais acessamos um quadro para enviar tropas em busca de recursos, ou ainda as Operações Especiais que se passam em mapas separados e temáticos, com missões de extração que podemos realizar solo ou com amigos. Após finalizarmos a campanha ainda existe a Insurreição, onde forças fiéis a Castillo buscam retomar o controle do mapa, algo interessante que adiciona uma certa vida extra para o jogo, mesmo que o jogador tenha tomado tudo no mapa.

O Co-Op está de volta, sendo possível jogar toda a campanha com um amigo. A progressão da história é mantida apenas para o host, mas o convidado mantém toda as melhorias conquistadas para o personagem, bem como os itens.

De uma forma geral, o combate está bastante divertido, como todo fã de Far Cry gostaria de receber. Seja agindo furtivamente ou explodindo tudo pelo caminho, o jogo te oferece inúmeras ferramentas para tornar Yara o seu parque de diversões. Uma aventura bastante familiar, mas nem por isso deixa de ser uma experiência extremamente satisfatória.

Eu só acredito que a Ubisoft poderia mudar um pouco o escopo do mapa, seja com um mapa menor, mas com uma densidade de atividades mais marcantes e que não tirem o peso da jornada da campanha. Não há nada de tão novo, o que é ótimo para manter as raízes da série, mas isso também não a leva para lugar algum. Eu gosto que Far Cry seja Far Cry, mas isso não precisa ser uma barreira para a série evoluir.

Yara é mortal, bela e imersiva

Yara é um paraíso tropical belamente criado pela Ubisoft. A ilha te hipnotiza com sua beleza natural, mas também possui diversos elementos que te alertam que ela é tão mortal quanto bela. Conforme exploramos o mapa podemos ver florestas, pântanos, montanhas, cavernas, praias, rios e cachoeiras, tudo com uma fauna e flora riquíssimas. Ainda assim, também podemos encontrar casas incendiadas, corpos espalhados ao ar livre, estruturas militares…. Uma mistura perturbadora que sempre te lembra que apesar da beleza, estamos explorando um local governado por um regime opressor.

O mapa é bem grande e com ambientes bastante diversos. A Ubisoft caprichou na criação de Yara que impressiona com cenários detalhados, cheios de cores, luzes e sombras. Posso afirmar, sem medo, que é o jogo mais bonito que fizeram até o momento. O clima dinâmico também contribui para dar vida a nossa aventura, seja com as mudanças entre dias ensolarados, nublados ou com chuvas pesadas, seja alternando entre dia e noite. O jogo também possui um bom Modo Fotografia para você capturar seus grandes momentos.

Cada personagem, que possui alguma importância na história, estão bem representados e trazem suas próprias características, sendo algo que contribui bastante para a imersão na trama. Ainda assim, em momentos nos quais precisam expressar mais emoção, seja raiva, tristeza ou alegria, a expressões faciais derrapam com animações estranhas. Esse não é um problema exclusivo de Far Cry 6, sendo algo que a Ubisoft precisa melhorar de forma geral em seus jogos.

No Xbox Series X o desempenho está muito bom, e raramente senti alguma queda brusca dos 60 FPS. Os loadings também são bastante rápidos, não quebrando o fluxo da ação. Até o momento da liberação dessa análise o recurso do Smart Delivery não funcionava com consistência, ora mantendo seu progresso, ora não. Por enquanto, recomendo esperar salvar para sair do jogo.

A música de Far Cry 6 é contagiante e combina perfeitamente com o clima de Yara. Os temas orquestrados (escute aqui), voltados para a trama exploram bem a tensão da narrativa, e nos deixam imersos no que vemos na tela. Já a radio é um show à parte, com diversas músicas latinas que trazem uma deliciosa mistura de salsa, R&B, Reggaeton, Rock, Pop, Rap, e muito mais. Como claramente Yara é inspirada, de certa forma, em Cuba, a idéia foi trazer temas que reforcem a linguagem cultural de lá, e isso chega com muita força no que ouvimos nas rádios. Utilizar veículos se tornou uma verdadeira delícia por causa dessa playlist maravilhosa (escute aqui).

Como já esperado de um título da Ubisoft, Far Cry 6 chega totalmente localizado para o Brasil, com legendas e dublagem em nosso idioma. A dublagem em português ficou muito boa, mas as vozes originais, como do maravilhoso Giancarlo Esposito, oferecem uma imersão sem igual.

Opinião

Far Cry 6 é um dos jogos mais bonitos já feitos pela Ubisoft. Cada cantinho de Yara te surpreende com uma beleza ímpar, com uma explosão de detalhes, cores e luzes. A trama traz um vilão poderoso, que mexe com a história de forma sutil e sombria. A narrativa também ganha um fôlego extra com personagens bem construídos e que agregam qualidade para a jornada de Dani Rojas. É a experiência clássica de um Far Cry, que certamente irá agradar aos fãs, mas a fórmula dá sinais de cansaço. O frescor das horas iniciais se perde depois de algum tempo de atividades repetidas e já vistas com exaustão, não só nos jogos anteriores da franquia como também em outros jogos do estúdio.

É aquela receita de bolo que você sabe que agrada, mas que se tivesse uma pitadinha de inovação poderia ser melhor ainda. Quem sabe ter coragem de testar um recheio ou uma cobertura diferente da próxima vez.

Far Cry 6 ainda é um jogo muito bom, que oferece muitas horas de diversão, mas fica aquela sensação de que a Ubisoft precisa sair um pouco mais da sua zona de conforto, para oferecer jogos realmente memoráveis e não apenas bons.


Entenda nossas notas

O jogo já está disponível e possui suporte para o Smart Delivery, então quem comprar no Xbox One poderá atualizar para a versão otimizada do Xbox Series X, e sem custo algum.




*Certifique que este é o preço praticado antes de efetuar a compra. Os valores podem variar.

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